No quarto número de O Pasquim, de julho de 1969, Wilson Simonal era o entrevistado. Em três páginas de perguntas e respostas, sem apresentação (e precisava?), “Simonal conta tudo”.
Abaixo, alguns trechos.
Sérgio – O domínio do público é uma coisa instintiva em você. É claro que há toda uma técnica mas, enfim. É fabricado ou espontâneo?
SIMONAL – Na verdade, eu não magnetizo ninguém. O público é que se magnetiza por si mesmo.
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Jaguar – Maísa disse que a pilantragem não existe. Compra essa, Simonal.
SIMONAL – Não, a pilantragem existe. E, inclusive, a pilantragem primordial de Maísa é quando ela picha as pessoas que são realmente muito famosas. É uma maneira de fazer pilantragem. Pilantragem é, por exemplo, este jornal de vocês. É um jornal pilantra, que usa a pilantragem inteligente. Quando uma revista famosa coloca o retrato do artista mais famoso na capa, é para vender revista, entende? Então, eu uso as coisas que aprendi com toda a minha experiência de cantor, de crooner, no sentido de pilantragem musical. E eu não me envergonho de dizer, porque eu disse realmente que é pilantragem e acredito que o público goste de minha pilantragem. O segredo do sucesso da minha pilantragem é que ela não é pretensiosa.
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Tarso – E hoje você acha que é o maior cantos do Brasil?
SIMONAL – O melhor, não, mas eu sou um dos melhores.
Tarso – Quais são os outros?
SIMONAL – Os outros, atuantes, eu diria… vocês vão morrer de rir, o Altemar Dutra. É que eu tenho um conceito muito diferente: eu não julgo o bom cantor pelo repertório que ele canta, mas sim pelo que ele pode fazer com a voz. Então, Altemar Dutra, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto, Agostinho dos Santos, Lúcio Alves… puxa, tem tanta gente, deixa eu ver…
Tarso – O que você acha de Jair Rodrigues?
SIMONAL – Acho um ótimo sambista. Não é cantor, ele é sambista. Cantor não canta samba; ou se é sambista, ou se é cantor.
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Sérgio – O Jaguar está dizendo que não tem a menor idéia do que faria se vinte mil pessoas urrassem seu nome no Maracanazinho. Possivelmente, ficaria estourando de máscara. Você, depois daquela consagração, não perdeu para sempre a sua pureza?
SIMONAL – Não, porque na verdade eu sempre fui, não digo puro, mas em relação à minha profissão eu sempre fui direito. Eu nunca me rodeei de frescuras e pode até parecer um pouco engraçado, cabotino, mas eu não me envergonho de dizer que eu sabia que o público ia cantar comigo. Eu não fui lá desprevenido, eu sabia. Já estou acostumado ao público me aplaudir e empolgar-se com a minha pilantragem. Mas o que aconteceu no Maracanazinho foi que o público não se empolgou, o público se emocionou.
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Bali – E o que você acha que tem de mais bacana: beleza, bossa, voz, idéia?
SIMONAL – Eu tenho muito charme.
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Sérgio – Eu digo o nome dos componentes e você dá notas de um a dez.Vamos começar com Chico Buarque.
SIMONAL – Eu daria dez em letra e quatro em música. Acho a maioria das músicas do Chico muito ruins.
Sérgio – Caetano Veloso
SIMONAL – O Caetano merece uma explicação, pela Tropicália que é um tipo de pilantragem. Eu conheço e gravei músicas do Caetano, sensacionais, fora desta linha misteriosa que ele andou fazendo. Na verdade, ele aproveitou o tumulto, a insatisfação geral, a depressão da juventude e optou pelo negócio da pilantragem, que parece não ter dado muito certo. Mas eu daria a ele dez como letrista e cinco como músico.
Sérgio – E Gilberto Gil?
SIMONAL – Dez como letrista e nove como musicista.
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Tarso – Quem é que você escolhe como gênio: Garrincha ou Pelé?
SIMONAL – O Pelé porque…
Bali – Você é racista?
SIMONAL – Não, eu não sou racista, minha mulher é loura, sou vidrado em loura, em olho verde, olho azul e não é necessidade de afirmação, eu acho engraçado, é realmente sensacional. Aliás eu gosto muito de melhor bonita, minha mulher também sabe disso e inclusive me prestigia. Quando eu paquero mulher feia, ela diz que o meu gosto está mudando e ainda me goza. Mas o Pelé foi mais inteligente, porque gênio é em todos os sentidos…
Jaguar – Como é que você encara o preconceito racial no Brasil?
SIMONAL – Acho meio frescura, mas no duro ele existe. E antigamente, quando eu andava empolgado com a esquerda festiva, não me envergonho de dizer que já estive meio nessa, sabe como é: a gente vai estudando, fica com banca de inteligente e pensando que é o tal, achando que muita coisa estava errada, que tinha que mudar muita coisa…
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Sérgio – Quanto você cobra por um show em clube?
SIMONAL – Nove milhões de cruzeiro velhos.
Jaguar – Qual a marca do seu carro?
SIMONAL – Uma mercedezinha, mas isso todo mundo tem.
Sérgio – Onde você nasceu?
SIMONAL – Nasci na Avenida Presidente Vargas, mas fui criado no Leblon, numa favelinha que tinha ali, a do 1008. Era uma favela bacaninha, tinha só 47 barracos com TV, água encanada e tudo.
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Sinceramente quando o Simonal se refere a pilantragem pode-se entender como o marketing dos dias de hoje. Tambem concordo que o Simona tinha muito charme.
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Acabei de ver o documentário sobre a vida de Wilson Simonal.
Emocionante. É revoltante o que fizeram com êle.
Gostaria muito de saber se o irmão dele, Roberto Simonal continua na ativa.
Obrigada
Katie