Lembranças do Andraus e do Joelma

Fevereiro parece ser o mês dos grandes incêndios. Há alguns que jamais esqueceremos, como os dos edifícios Andraus (24 de fevereiro de 1972), Joelma (1º de fevereiro de 1974), Grande Avenida, (14 de fevereiro de 1981), todos em São Paulo. Em 1986, também em fevereiro, seria a vez do edifício Andorinha, no Rio. Os incêndios do Andraus e do Joelma completaram, respectivamente, 40 e 38 anos neste fevereiro de 2012. O Andraus deixou 330 feridos e 16 mortos. No Joelma, foram 189 mortos e mais de 300 feridos.

Algumas pessoas podem se perguntar: “Por que lembrar essas tragédias?”. A resposta é simples: para evitar que novas aconteçam. Quatro décadas depois desses grandes incêndios, há mais prédios, mais altos, mais concentração de pessoas. Também há mais tecnologia para prevenir e combater, mas nada parece ser suficiente. Só para citar alguns de fevereiro de 2011: o de uma loja de roupas na Sé, em São Paulo; de um prédio em Taubaté (SP); e o da Cidade do Samba, no Rio de Janeiro.

Para lembrar os incêndios do Andraus e do Joelma, convidamos o historiador Wilson Natal, que viu in loco o primeiro.

ANDRAUS – 24 de fevereiro de 1972


Parecia um dia como outro qualquer… Na rua, o sol. E um calor que mordia a pele. Dia quente. Muito quente!

O povão, suando em bicas, ia e vinha pelas ruas exibindo camisas com os colarinhos ensopados, costas e sovacos molhados. Lenços saíam dos bolsos para “dar adeus” ao suor de testas. Eu, no escritório, sentado à minha escrivaninha, olhava pela janela, admirando a cúpula de poluição que dava uma coloração amarronzada ao céu. A coisa estava braba.  (…)

Passou um tempo e o chefe veio até a minha mesa. Entregou-me um cheque em branco e uma folha com três textos breves. Era coisa particular do patrão. Eu deveria ir às “Folhas”, mandar publicar aqueles textos nos anúncios classificados.  Peguei a pasta, o cheque e o texto e sai. Na porta do prédio senti aquela sensação de estar entrando em uma fornalha. A cidade derretia, eu também. Mais próximo da Rua Direita que da Praça Antonio Prado, optei pela Direita. Saí da Rua Álvares Penteado e rumei para o Viaduto. Ia resmungando comigo mesmo: “Calçadas deveriam ser rolantes e cobertas”.

Parecia um dia como outro qualquer, mas não foi…

Os quase quarenta anos que me distanciam do dia 24 de fevereiro de 1972, não me fizeram esquecê-lo. Foi o choque que se transformou em trauma. Jamais havia visto um incêndio de grandes proporções, “ao vivo e a cores”. (…)

A sessão de anúncios da Folha parecia a casa da mãe Joana. Muito abafado, muita gente e muito falatório.  Espera que espera. De repente, um cheiro – como dizíamos à época – de corno queimado – começou a impregnar o ambiente. O negócio era esperar. Não sairia dali sem ser atendido…  Guardava os comprovantes na minha pasta quando de repente, um boy enlouquecido entrou correndo, gritando para todos:

–  “Gente, o Andraus está pegando fogo!”

Rimos dele. Só podia ser piada. E a gente não ia cair nessa! Mas o boy insistia: “Né brincadeira, não!” Enquanto ele falava, ouvimos o estardalhaço de sirenes e o barulho das inconfundíveis sirenes do Corpo de Bombeiros.

Saí da Folha e vi uma multidão andando apressada pela rua e carros fazendo manobras de retorno. Segui pela Barão de Limeira, esgueirando-me entre as pessoas, em direção à Praça Julio de Mesquita. Olhei para o alto e vi o negrume da fumaça no céu. Sentia um cheiro forte e sufocante de materiais incinerados.

Consegui chegar até a Praça, mas a Barão estava fechada com uma corda de isolamento. Dali, vi o Andraus sendo consumido pelas chamas. Estalava, enquanto as línguas de fogo que pareciam ter vida própria avançavam para o topo. Ferragens, vidros, reboco despencavam em meio à Av. São João. Uma fumaça densa e negra brigava com as chamas e, as duas, envolviam o edifício. Uma garoa fina, provocada pelas mangueiras de alta pressão chegava até mim, assim como o bafo quente daquele fogo que devorava o monólito.

Olhando para o alto, vi no topo do edifício um grupo de pessoas. Cai na realidade. Havia vida naquele prédio! Tinha gente dentro dele! Entrei em pânico. Fui tomado por uma vertigem que quase me fez cair. Respirei fundo e tentei sair daquele estado de ansiedade, impotência e desespero. Minha mente desviou o meu olhar fixado no alto e o direcionou para o térreo. Vi então que a Pirani não mais existia. Pensei: “Adeus, oferta especial da vitrola Phillips”… Um simples pensamento tão fútil, banal fez com que eu me recompusesse. Não podia fazer nada para aliviar aquela situação terrível, a não ser rezar.

Fiquei lá, olhando o trabalho magnífico dos bombeiros que, com toda aquela estratégia de salvamento que me parecera nova até para eles mesmos, trabalhavam alheios ao barulho ensurdecedor do helicóptero, que tentava pousar no teto do prédio.

Quanto tempo eu fiquei por lá, vagando, olhando? Quantas horas? Não sei. Sei que foi uma eternidade. Cheirando à fumaça, coberto de partículas de cinza, voltei ao escritório e de lá fui para a minha casa. Fui pensando na fragilidade da vida humana e nos porquês existenciais… Por que o Andraus, um prédio tão novo?

Os jornais, a TV e o rádio explicaram. Não fosse o incêndio do Andraus, teríamos hoje muitos casos de “morte anunciada”. Mas não foi bem assim. Outra tragédia estava por vir…

* * * * *

JOELMA – 1º de fevereiro de 1974


Eu estava “de molho”, curtindo uma quarentena por conta de uma doença. Naquele dia, pela manhã, depois do café, fui para o jardim tomar um pouco de sol. Fiquei lá por um tempo e entrei. Fui para a sala fazer companhia a vovó que crochetava ao mesmo tempo em que assistia ao programa matinal da Clarice Amaral, na TV Gazeta.

Estava prestes a levantar para pegar um livro quando Clarice interrompe o bloco e avisa: “Gente, um edifício está pegando fogo no centro da cidade.” Rápido, cortam a imagem do estúdio e uma câmera externa, no alto do prédio da Gazeta, debruça-se sobre a Nove de Julho. Ao longe, rolos de fumaça elevando-se em direção ao céu.

Quase nove horas da manhã do dia primeiro de fevereiro de 1974, começava o drama do Edifício Joelma.

Fui até o televisor e comecei a girar o seletor de canais em busca de mais informações. A Tupi, Record, Globo, em edição extraordinária, falavam do incêndio. E todas, em poucos minutos, estariam transmitindo ao vivo do local.

Eu estava abismado! A memória traumática do incêndio do Andraus trouxe de volta o cheiro da fumaça e lembranças tristes. Pensava: “Então, nada foi feito? E todo aquele estardalhaço sobre medidas mais rígidas, fiscalizações menos espaçadas dos edifícios e multas pesadas? E aquela história de aparelhar melhor o Corpo de Bombeiros, de renovar a frota? No que deu aquela história de se construir escadas de emergência externas?”

A cada imagem, comecei a perceber que a tragédia do Andraus, vista com os meus olhos, dava-me apenas a dimensão do todo. E que a tragédia do Joelma vista pela TV, detalhava em takes o drama das pessoas acuadas pelo fogo e pela fumaça.

Pelo televisor, vi, como se lá estivesse – e por toda a parte -, o desenrolar do drama. Bombeiros estarrecidos pela falta de água que os impediam de cumprir o dever, escadas que não alcançavam os andares superiores, o helicóptero que em mil manobras tentava um ponto de apoio para o salvamento. E pessoas. Pessoas em estado de choque, espremidas nos vãos, no alto do edifício, fustigadas pela fumaça, fogo e calor; tentativas vãs de descer para o andar inferior, bombeiros intoxicados pela fumaça.

Na TV, as vozes em off dos repórteres que estavam no local pediam às pessoas das imediações que levassem leite, muito leite e água mineral.

No solo, começaram a aparecer as faixas e cartazes pedindo calma. Por megafones, bombeiros e policiais gritavam a plenos pulmões para que todos mantivessem a calma, que o incêndio estava dominado.

De repente, alguém se jogou do prédio. Logo, mais um… Depois outro… No solo, em um canto, amontoavam os corpos à espera do rabecão. As pessoas solidárias desmaiavam, choravam, imploravam para que ninguém mais se jogasse. E o desespero daqueles que, em pânico, estavam no alto do prédio.

Quatro horas de inferno foi o quanto durou o sinistro incêndio do Joelma. Quatro horas em que os bombeiros driblaram a precariedade dos meios de combate ao fogo e improvisaram com maestria, técnicas que salvaram muitos. Difícil foi a tarefa dos bombeiros! Apagar as chamas, retirar os feridos e carregar os mortos. Quatro horas, 345 feridos e 189 mortos… Três dias para o rescaldo e busca de novos corpos; uma semana ou mais de perícia e retirada de escombros.

E o Joelma virou lenda urbana. Policiais que vigiavam o interior prédio confessaram “que ouviam gritos desesperados e saíam a procurar sem encontrar nada”. Alguns revitalizaram a lenda de Anhangá – espírito do mal, que mora no Vale, responsabilizando-o pelos suicídios das pessoas nos Viadutos (Chá e Santa Ifigênia), pelo famoso crime do poço (acontecido no local onde está o Joelma). Falavam de fantasmas vagando pelos andares do prédio. Outra corrente culpava o mês de fevereiro por ser nefasto.

E virou lenda urbana a “providência radical que a Prefeitura iria tomar”. Virou piada também.

Não sei se a Prefeitura fez pouco ou nada, ou se o mês de fevereiro é “fogo” mesmo. Mas sei que a 14 de fevereiro de 1981, o Edifício Grande Avenida pegou fogo. Era sábado de carnaval.

* * * * *

O programa Linha Direta Mistério, da Rede Globo, mostrou a história do incêndio do Joelma e as lendas que cercam a tragédia. Pode ser visto na íntegra, no YouTube, começando pelo vídeo a seguir.

 

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