Lembranças de carnaval de Marina Miyazaki

Era fantasia de carnaval

Era um clube metido a rústico, feito de bambu, idéia interessante e inovadora para época, mas não era nada disso, era falta de grana mesmo.

Pessoas de todos os tipos se misturavam, criando um clima bonito, sem preconceito e sem discriminação, mas não era nada disso, não existia outro clube na cidade.

Meu paquera já deixara de frequentar as matinês, por que já tinha idade para ir aos bailes noturnos. Parecia um príncipe, mas não era nada disso, tinha fama de cheirador de lança-perfume e maconheiro – isso era assustador – e eu não sabia.

Eu comecei a ir à noite também. A primeira vez, usei uma fantasia de sereia, fiquei parecendo uma moça, mas não era nada disso, só pude ir por que sobrou convite, e as primas bem mais velhas insistiram para o meu pai deixar. Eu tinha 12 anos.

Por um erro no número da mesa, nos fizeram dividir a mesma mesa em que estava o “meu” Príncipe solitário – que até me olhava, quando brincávamos de “queimada” na escola. Mas não era nada disso, ele estava com uma moça, moçona de verdade, grande e alta.

E numa certa hora da madrugada, ao som da marchinha “Caiu na rede é peixe, leleá, eu não posso bobear… A maré tá cheia, tátátátátá, cheia de sereia…”, e eu, de Sereia, fui fisgada pelo Príncipe Submarino, mas não era nada disso, era o Bicho Papão.

“Quando eu nasci, minha mãe dizia, tome cuidado com o Bicho Papão… fiquei mocinha, cê sabe como é, e o tal Bicho Papão virou meu namorado”. Meu primeiro namorado.

Marina Miyazaki, 43 anos

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Lembranças de carnaval de José Luiz Coe

Quem me conhece, sabe que não sou do tipo que curte carnaval. Sou uma pessoa muito reservada, pareço um matuto da cidadezinha do interior mais distante. Daqueles que entre amigos é super engraçado e extrovertido, mas que na presença de estranhos não passa de um mero ouvinte, chego a ser completamente mudo. Talvez seja por isso que eu escreva tanto, aqui estou sempre entre amigos.

Eis que em um ano, alguns amigos me convenceram de que eu deveria experimentar e “curtir” o carnaval. Eles me levaram para cidade de Macau, no Rio Grande do Norte. A grande tradição por lá neste período é o “bloco do mela-mela” – ou simplesmente “Mela”, onde alguns caldeirões de mel são espalhados pelo bloco e as pessoa se divertem enchendo copos, garrafas e jogando nas pessoas que passam. Achei estranho que isso pudesse realmente ser divertido, mas enfim, não discuti. Fomos para Macau.

Chegando lá, fui me informar onde acontecia a festa e, dada a minha curiosidade que chega a ser doentil, segui para ver como era. Quanto mais eu chegava próximo ao local, mais me sentia bonito, cheiroso e limpo. Resolvi continuar e só olhar para ver o que acontecia. Me encostei na parede e fiquei olhando as pessoas passando pela rua. Imagine ruas de cidade de interior onde passam 2 carros (lado a lado), casas de um lado e do outro e eu encostado em uma porta. Foi este o cenário durante trinta minutos, aproximadamente.

Muito engraçado ver que além do mel, existia um ingrediente que eu não havia sido informado, era a tal da farinha de trigo. Não conseguia imaginar as pessoas se divertindo virando um bolo ambulante, mas tudo bem, até que alguém me viu. Tratei logo de me fazer de desentendido e virei para o outro lado. Era o único que parecia não estar se divertindo, estava só olhando – como sempre faço. Adoro observar, acredite, eu me divirto muito assim.

Momentos depois, aparece uma pessoa muito feliz ao meu lado. Desconfiei, mas, como de costume, virei para o lado e comecei a observar o outro lado da rua até que vieram em minha direção muitas pessoas felizes… pareciam predadores felizes e quando você vê predadores felizes e não consegue identificar quem é a presa, você é a presa.

O que eu fiz? Corri! Muito! Até que me vi em um filme, daqueles de zumbi, onde todo mundo quer te pegar. Quanto mais eu corria, mais chamava atenção e aguçava a vontade de ser “melado” pelos zumbis, antes tivesse ficado parado, chamaria menos atenção. Consegui correr muito, até que um deles conseguiu me melar. Parei para tentar descobrir quem foi – e este foi meu maior erro. De repente vieram outros e outros até que eu tinha tanto mel, mas tanto mel, que até para abrir a boca era difícil dada a quantidade de cola – sim, o mel vira cola – que tinha em meu rosto.

Pensei em voltar para casa, pois era tanta a minha insatisfação. Isso durou uns quinze minutos antes de eu olhar para o outro lado da rua e ver uma pessoa que destoava das demais. Ela estava limpa e estranhamente aquilo fez eu me sentir muito bem.

Muita coisa aconteceu depois disso. Esta “cena” de carnaval passa como se fosse um filme na minha cabeça até hoje, e me fez entender muita coisa e a principal delas é que, para muitos, você precisa ser igual para se sentir bem. Eu me senti bem no momento que vi que existe lugar para pessoas diferentes que sabem se adaptar e se divertem a sua maneira. Tem gente que nasceu para muvuca, e, como diria um amigo: “desculpa, mas eu nasci para camarote”.

Viva o carnaval!

José Luiz Coe, 28 anos, engenheiro e webmaster

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Antigos carnavais: Cordão da Bola Preta – 1933

Foto de 1933 do Cordão da Bola Preta, que reúne seus fundadores. O Cordão completou 91 anos de idade este ano. O mais antigo dos grupos carnavalescos cariocas arrasta uma multidão pelas ruas do Centro logo pela manhã do sábado de Carnaval. Animado por uma banda que toca marchinhas famosas, o bloco faz o carnaval como no Rio Antigo, com seus foliões brincando e desfilando com fantasias engraçadas. Pelo Bola Preta passaram grandes nomes da música popular, como Blecaute, Orlando Silva, João Roberto Kelly e Elizeth Cardoso.

Antigos carnavais: Assustado – 1922

Assustado era como se chamava um tipo de baile íntimo, improvisado, que acontecia no carnaval. A foto mostra um Assustado de 1922. Atrás dos músicos, da esquerda para a direita, Cláudio Manoel da Costa, Di Cavalcanti, Kalixto, Marques Pinheiro, Luís Peixoto, Raul (sentado entre duas “deusas”), José, Amaro, uma “deusa” e Hélios Seelinger.

Lembranças de carnaval de Chico Moreira Guedes

Morei minha infância toda na Hermes da Fonseca, a “Pista”, como era conhecida a única via asfaltada de Natal daqueles idos de lá-vai-fumaça, no quarteirão entre Mipibu e Trairi. Éramos assim parte e fronteira da Cirolândia, ex-delicioso sub-bairro de Petrópolis que começa ali e se estende até o pé do morro de Mãe Luiza.

Sentado no muro da frente de casa eu assistia muito do pouco de notável que acontecia na província: desfiles do 7 de Setembro, passeatas políticas, e, chegado o Carnaval, a meio assustadora passagem dos “índios do morro” (seriam os potiguares?) que desciam de Mãe Luiza, caras pintadas de poucos amigos, saias e perucas escuras de agave tingido, arcos, flechas e tacapes, e, sobretudo, o ritmo hipnotizante dos surdos marcando a coreografia monótona: tun-tch-tun-dum / tun-tun-tch-tun-dun, uma batida que jamais esqueci. Acho que neles minha cabecinha de menino reconhecia, fascinado e apreensivo, os misteriosos “pobres” cruzando ameaçadoramente o palco do nosso protegido e conservador universo classe-média.

Outro grande evento era o Corso d’avenida Deodoro. Lembro-me de dar volta após volta em cima da caminhonete de seu Edgar Salustino, nosso vizinho mais festeiro, um bocado de meninos e meninas armados de lanças de plástico cheias d’água xeringando e sendo xeringado pela gente que se aglomerava ao longo das calçadas. Jogava-se e levava-se também maizena e outras farinhagens menos nobres, além de muito confete e serpentina; e voltávamos pra casa ao escurecer ensopados e excitados, e já sonhando co’a folia do dia seguinte.

Chico Moreira Guedes, 53 anos, tradutor